A cidade de Salvador está situada numa península, fato nem sempre reconhecido ao se planejar transporte público, sistema viário ou ocupação do solo. A palavra península vem do latim, paene, que significa “quase”, e insula, “ilha”.
Portanto, Salvador é uma quase ilha, que na prática tornou-se uma “ilha” ligada ao continente por três “pontes”: a BR-324, a Via Parafuso e a Estrada do Coco. A BR-324 é a grande responsável pela expressiva conexão de pessoas e cargas da cidade com o país; a Via Parafuso conecta o Polo Industrial de Camaçari e a Estrada do Coco é destinada às zonas de moradia, veraneio e turismo.
A superpopulação de cerca de 3 milhões de habitantes para Salvador é um número explosivo, que se movimenta dentro da “ilha” quase que exclusivamente sobre rodas. As três “pontes” existentes são insuficientes para atender a conexão peninsular com mais de 400 municípios, já que a quase ilha é a capital do estado, o que impõe concentrada demanda de múltiplas inter-relações.
Soma-se a isto a frota de veículos, que saltou de 800 mil, em 2000, para 3,16 milhões em 2013, número que continuará aumentando por absoluta necessidade de locomoção dos 14 milhões de habitantes sem alternativa de outros modais de transportes.
Este crescimento da frota, por um lado, agrava a situação, mas, por outro, viabiliza soluções. O que fazer? O primeiro aspecto a ser analisado deve ser a necessidade de desconcentração administrativa do estado e, neste ponto, vale lembrar a interessante proposta do professor Marcus Alban, de mudar a capital para a Chapada Diamantina. Esta ideia pode solucionar muitos problemas, sobretudo os de desigualdade social.
O segundo aspecto é a logística de transportes. Como as três “pontes” atuais não têm mais como dar vazão ao aumento do fluxo de veículos, surge o da ponte Salvador-Itaparica, já em fase de estudos avançados, e os projetos conceituais da Via Recôncavo, autopista e ferrovia Salvador-Feira. Estas infraestruturas não são excludentes e são necessárias, diante do alto crescimento da frota de veículos.
A ponte Salvador-Itaparica é um empreendimento imperativo sob o ponto de vista da logística, com os conceitos de via para as rotas sul/oeste, hoje inexistentes, e de desconcentração da Grande Salvador. Tanto a autopista como a ferrovia Salvador-Feira devem estar implantadas em prazo inferior a 10 anos, o que requer urgência nos estudos, atendendo, prioritariamente, ao fluxo de passageiros das zonas industriais de São Francisco do Conde, Candeias, Camaçari e Simões Filho.
Estas serão mais duas “pontes” adicionais à “ilha” de Salvador, necessárias a um sistema viário seguro para uma frota de veículos que cresceu a uma taxa média superior a 10% ao ano, nos últimos 13 anos.
O projeto Via Recôncavo é imprescindível para atender à própria região, hoje servida por estradas de desenho geométrico obsoleto, com quebra-molas dentro de vilas e cidades e com o agravante de elevado número de acidentes. Ademais, será acessada, obrigatoriamente, pela “ponte” BR-324, criando uma sobrecarga, razão pela qual não se constitui em alternativa.
Quanto à ponte Salvador-Itaparica, o grande desafio é reduzir o valor do investimento, com o uso de tecnologias modernas e engenharia criativa, para viabilizá-la rapidamente. Vale destacar, neste caso, o estudo do arquiteto Lourenço Valadares, concebendo uma ponte baixa, mais econômica, novo traçado e túnel marítimo, além de um porto off-shore.
A Bahia não tem recursos suficientes para atender à infraestrutura necessária ao estado e não pode ser investidor na ponte. Se a ponte Rio-Niterói, assim como outras grandes infraestruturas de estados mais ricos foram realizadas com recursos da União, por que não pleitear o mesmo para a Bahia? E para obter sucesso, tudo isso impõe planejamento e o envolvimento de profissionais locais das áreas de economia, engenharia e arquitetura. Com o uso da boa técnica, criatividade, inovação e união de propósitos, encontraremos as melhores soluções para a Bahia.
Paulo Villa é diretor executivo da Associação de Usuários dos Portos da Bahia (Usuport).
Artigo publicado pelo Jornal A Tarde, em 30 de abril de 2014.