Porto não transgênico

Muito interessante o posicionamento do governo do Paraná, ocorrido nesse outubro, de não permitir embarcar a soja transgênica no Estado. Foi, sem dúvida, mais um ingrediente nas discussões sobre a transgenia no País e, diga-se de passagem, um ingrediente apimentado (com pimenta não transgênica).

O Porto de Paranaguá é o maior porto brasileiro exportador de soja e um dos mais importantes do mundo do setor. Ali passa a produção de diversos estados da federação e também do Paraguai. Com um cenário de estados produtores e usuários de um mesmo porto, mas com posicionamentos diferentes sobre tão discutido tema, mais um conflito aflorou e a solução será jurídica ou logística. Abstraindo a transgenia e o direito, o que vale realçar é no campo da logística.

O governo paranaense assumiu compromisso com importadores chineses, de que o Porto de Paranaguá é originador de soja natural. No mundo das commodities, a originação é decisiva quanto a qualidade do produto e, consequentemente, para a sua valorização. Originar o grão em tal porto significa para o importador a tranqüilidade de que está recebendo o produto desejado. Então, o que se fez foi dar credibilidade ao Porto de Paranaguá.

O governo paranaense estabeleceu um marco conceitual, na defesa do entendeu ser melhor para a gente do seu estado. O porto com credibilidade facilita a vida de qualquer exportador e valoriza o seu produto. Evidentemente, há risco de diminuir a quantidade de soja exportada por Paranaguá, que supõe-se calculado. Cabe ainda esclarecer, que os portos do Paraná são administrados pelo governo estadual. No processo de modernização dos portos e sem entrar no mérito da transgenia, Paranaguá dá um exemplo, quanto ao conceito de porto originador.

O que irá acontecer agora, além de discussões parlamentares e batalhas jurídicas? Pode-se abrir a oportunidade de novos terminais portuários “transgênicos” ou inibir o avanço dos plantios da semente modificada ou, ainda, o esperado posicionamento de mercado, definindo com clareza a diferenciação de preços entre os grãos transgênicos e os naturais. Essa diferenciação de preços pode resolver boa parte das discussões hoje existentes.

Além de interessante, a decisão paranaense enriqueceu o debate e de forma inteligente, também criando novos conflitos. Mas nesse caso, não deve ser o juiz ou ministro ou parlamentar, a dar a solução. O mercado é quem deve mostrar se a decisão foi acertada ou não.

Paulo Villa é engenheiro civil, consultor de portos e logística

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