É sabido que o uso do contêiner transformou-se na maior revolução do transporte de cargas nos últimos 40 anos, pela redução à unidade padronizada de transporte, a sua universalização, com segurança, inviolabilidade e simplificando o manuseio de cargas. Suas dimensões foram calculadas de modo a permitir igual e facilmente a multimodalidade na movimentação de cargas, seja pelo mar ou hidrovias, ferrovias e rodovias. Pelas características de inviolabilidade e segurança, a diminuição de riscos foi um significativo impacto positivo para os donos de cargas, resultando em preços menores dos prêmios de seguro.
Todavia, no Brasil, ainda não se consegue obter um grau de eficiência satisfatório no modal rodoviário, que contemple uma expressiva diminuição de riscos pelo uso de contêineres. Nas rodovias, não é incomum os acidentes com contêineres tombados das carretas. É possível apontar as causas de acidentes, mesmo desconhecendo a existência de estatísticas ou pesquisas que possam orientar a solução de problemas. Há rodovias com traçados obsoletos ou inadequados, outras sem a manutenção adequada e até rodovias destruídas (abandonadas). Este cenário leva os transportadores a buscar veículos cujo tamanho de roda, conjunto pneu e jante, seja o maior possível para que esta possa ultrapassar melhor as imperfeições das pistas. Ainda que seja uma solução racional, de natureza defensiva quanto a má qualidade de pavimento das rodovias, no entanto, isso vem a elevar o centro de gravidade do veículo carregado, tornando mais fácil o tombamento de contêineres, principal e exatamente pela má qualidade do pavimento. Na Europa e nos Estados Unidos, onde a qualidade e regularidade do pavimento é coisa levada a sério, pois os gestores públicos ou privados são responsabilizados, a altura das carretas destinadas ao transporte de contêineres são inferiores às usadas no Brasil, pelo uso de rodas menores, refletindo diretamente em maior segurança do veículo e da carga. Como se vê, a má qualidade de pavimento das rodovias potencializa o risco de acidentes, tendo influência progressiva no “custo Brasil”. Com exceção de São Paulo, onde já existe uma infra-estrutura moderna, a maioria dos estados brasileiros não conta com rodovias seguras e adequadas para o bom transporte de cargas.
Nas vias urbanas, onde também acontecem acidentes com contêineres, é raro a existência de superlargura1 nas curvas, capaz de acomodar corretamente os veículos longos, até mesmo em cidades servidas por transporte coletivo de passageiros de veículos longos, fazendo com que as carretas “invadam” a pista contrária, passem por cima de calçadas ou façam manobras arriscadas. Igualmente, distância de visibilidade e raios mínimos de curvas que não são compatíveis com caminhões ou ônibus convencionais, quanto mais os veículos longos e articulados.
Ao se mencionar alguns elementos de projeto geométrico de vias, além da qualidade do pavimento, busca-se lembrar as boas práticas da engenharia, essencial em qualquer infra-estrutura de transportes. Para uma performance eficiente do transporte rodoviário de cargas no Brasil, além da manutenção e conservação das vias, já muito reclamadas, precisa-se sempre utilizar as melhores técnicas de engenharia rodoviária, não só nas estradas, como também nas cidades, pois, o mais relevante é a segurança da vida humana. Construir um bom projeto é muito mais barato do que corrigir projetos imperfeitos depois. A criação e o desenvolvimento de espaços de segurança, traduzidos por bons projetos rodoviários, é fundamental para o futuro do País. Assim, se poderia ter carretas com plataformas mais baixas e seguras, com pneus menores e mais baratos e, ainda, os menores custos para as cargas conteinerizadas, melhorando a competitividade dos produtos.
Paulo Villa é engenheiro civil, consultor de portos e logística
1É o necessário alargamento da pista numa curva circular, de modo a assegurar que as trajetórias dos pontos extremos de um veículo sejam realizadas totalmente dentro de cada faixa de rolamento.