Na expedição de Gonçalo Coelho para prospectar a nova conquista portuguesa, o cosmógrafo Américo Vespúcio registrou em 1º de novembro de 1501, a maior reentrância de águas profundas e abrigadas das terras recém descobertas, dando-lhe o nome do santo do dia, costume da época, no caso, o consagrado a todos os Santos. Durante quatro séculos, Quirimurê, como os índios Tupinambás a chamavam, a baía foi cabeça do oceano e o melhor abrigo natural, onde os navios que faziam a rota para o Atlântico Sul e Pacífico, obrigatoriamente paravam e se abasteciam, integrando os mercados. Foi muito cobiçada por franceses e holandeses, por sua posição estratégica. Durante o Brasil Colônia, Salvador ficou conhecida como Porto do Brasil, a Cidade Porto, a Cidade Armazém, cidade voltada para o mar e importante porto exportador/importador. No seu entorno se desenvolveu uma próspera economia dos engenhos de açúcar, madeiras e alimentos, cuja maior facilidade era o transporte aquático. Sua importância só foi relativamente diminuída na segunda metade do século XIX, com o crescimento da capital da monarquia, o Rio de Janeiro, e pela abertura do Canal do Panamá.
O Brasil virou república e se desenvolveu desigual, mas a baía de Todos os Santos manteve a sua força como um plataforma logística, e além do porto de Salvador, hoje possui o porto de Aratu, o Terminal de Madre Deus da Petrobras, o Terminal da Gerdau, o Terminal da Dow e estão em construção mais dois terminais, o de Cotejipe e o da Ford, que além da Base Naval de Aratu, formam um respeitável conjunto portuário associado aos complexos industriais. Não se pode deixar de mencionar que também foi o local escolhido para construção de diversas plataformas de petróleo.
Ao se cotejar a baía de Todos os Santos com os demais sítios portuários da costa brasileira, se constata que nenhum outro lugar possui melhores condições para instalação de portos ou terminais que este, com o fim de atender a expansão do comércio exterior. As condições são traduzidas pela excelente acessibilidade, profundidade, visibilidade, abrigo, suporte urbano, volumes de cargas nos dois sentidos, entre outras. Os investimentos em novos portos ou terminais são de baixo custo, quando comparado aos outros sítios. Os custos operacionais, por conseguinte, também são muito mais baixos, igualmente comparados. Enquanto a dragagem é essencialmente cotidiana na maioria dos portos, nos portos da baía de Todos os Santos sua freqüência é superior a uma década. A praticagem é barata pela rapidez de atracação. Os rebocadores trabalham menos que em outros portos, pois, suas manobras são fáceis. Esse privilégio que a natureza legou à Bahia, não é somente em relação ao Brasil. A baía de Todos os Santos tem capacidade de possuir portos e terminais, entre os mais baratos e competitivos do mundo.
Assim, dispondo dessa excepcional condição natural, a baía de Todos os Santos está pronta para ser a melhor plataforma logística do País e voltar a ser o Porto do Brasil.
Paulo Villa é engenheiro civil, consultor de portos e logísticas