Às vezes dá-se conta que o Brasil já foi um país mais civilizado, na medida em que era menos desigual. As disparidades eram menores, sejam as regionais, as sociais e as econômicas, e hoje, as estatísticas mostram os índices que, inequivocamente, colocam o País como um dos mais desiguais do planeta. A desigualdade é efeito, antes de mais nada, do egoísmo, preceito moral que define uma conduta do ser humano, em que prevalece o interesse individual. E é nessa prevalência que se faz sentir menos civilização, com práticas de relações primitivas. Nas relações econômicas, é comum, aqui e ali, a prática de um capitalismo selvagem, para não se falar de relações pré-capitalistas ainda existentes. Na era fernandista, a desigualdade foi agudizada, tanto na âmbito interno como no externo, ainda que houvesse alguns avanços pontuais e a propaganda oficial tenha procurado camuflar o problema. Internamente, a desigualdade foi banalizada, como que fazendo parte da cultura, predominando nas mais amplas e diversas questões, seja social, econômica ou regional, passando a ser muito evidente na tecnologia, na previdência, na formulação e na aplicação de leis, nos salários, nos empregos, nas cidades, na infra-estrutura, nos produtos consumidos pela população, nos pedintes e meninos de ruas, enfim, influenciando constrangedoramente a qualidade de vida de toda a sociedade brasileira. Externamente, no mesmo período, o gap entre os países do hemisfério norte e o Brasil aumentou tão abismalmente, que também é constrangedor.
A esperança passou a permear a cabeça de uma sociedade inquieta, que soube que chegou a hora de mudar com um novo governo, e este quer, imperativamente, mudar essa lógica, para se reconstruir um novo País menos desigual.
E como promover o desenvolvimento e a integração nacional? Não será só pela educação, saúde e teto ou muito menos só pelo assistencialismo, que se conseguirá dar aos brasileiros a dignidade e a cidadania de forma igualitária, em um País de dimensão continental. Aqui surge a infra-estrutura de transportes, como um fator fundamental do direito de acesso aos meios de transportes. A receita não é nova. Na recente integração européia, os investimentos em belas rodovias, ferrovias e portos foram usados como um fator decisivo para homogeneizar as regiões, principalmente sob o ponto de vista social, pois, empregos são criados para as obras, no início, mas na essência se eleva a classe dos ambientes, para permitir a igualdade de oportunidades, e até de competição econômica, com os outros ambientes já desenvolvidos. O resultado foi um sucesso, obviamente, associado a outras políticas fomentadoras, como vantagens tributárias e de diferencial de juros, para os novos empreendimentos. A repercussão foi ampla, atingindo a todos os segmentos econômicos, principalmente o de serviços e até o turismo.
No Brasil, ocorreu exatamente o inverso, quando nos últimos tempos foram reforçados os investimentos nas áreas de maior densidade econômica, que resultou numa brutal disparidade e de conseqüências até trágicas, como é o caso da progressiva insegurança e o próspero tráfico de drogas. Assim, constata-se que foram criados os dois brasis, um com infra-estrutura de primeira e outro de segunda ou sem classe.
Chegou o momento de direcionar os investimentos em infra-estrutura, como política de integração nacional e internacional. Nacional, porque não se pode ter dois padrões distintos no mesmo país e é imperativo se acabar com as desigualdades. Internacional, porque o País se tornou refém da necessidade de divisas e precisa crescer sua participação no turismo e comércio externo, principalmente, nas exportações de produtos.
Implantar rodovias de classe mundial, com padrões do futuro, no sertão nordestino, em zonas propícias ao turismo e à produção econômica. Ousar, com propostas de transporte ferroviário rasgando locais de densa produção, para permitir facilmente a multimodalidade, principalmente no sentido leste-oeste, ligando os principais portos ao interior, também cumprindo o papel do conceito de eixos de desenvolvimento e incorporando novas oportunidades de negócios. Aumentar a capacidade facilitadora de negócios nos portos, pela passagem de fluxos de cargas. Ressalta-se novamente, a geração de empregos pelos novos investimentos e nos serviços de logística, contribuindo para mudar o ambiente e permitir o progresso e a geração de riquezas.
Assim, na hora da confecção do orçamento da república, o parlamento não pode ser egoísta e tem que pensar na imensa nação brasileira de forma mais igual. Portanto, é possível se diminuir as desigualdades e a infra-estrutura é chave para a integração nacional e internacional.
Paulo Villa é engenheiro civil, consultor de portos e logísticas